
Quem já foi ao SXSW sabe: você volta de Austin com a cabeça borbulhando.
É tanta inovação, tecnologia, comportamento e cultura acontecendo ao mesmo tempo que surge uma pergunta inevitável quando a viagem acaba: e agora?
Porque ter uma lista enorme de tendências para acompanhar é fácil. O desafio começa na segunda-feira seguinte, quando é preciso decidir o que realmente faz sentido para o negócio.
Foi para colocar essa discussão na mesa que a Copastur promoveu o “Futuro Aplicado: o que realmente importa depois do SXSW”. A proposta era sair um pouco do exercício de prever o futuro e olhar para o que já está acontecendo: quais escolhas as empresas precisam fazer, quais impactos já aparecem no mercado e como transformar tecnologia em aplicação prática.
Como destacou o próprio relatório oficial do SXSW, “O futuro pertence ao que só o ser humano pode oferecer”.
E foi a partir dessa provocação que Arthur Igreja, Simone Kliass e Amanda Graciano compartilharam suas visões sobre Inteligência Artificial, comportamento, trabalho e, principalmente, sobre o que fazer com tudo isso quando a palestra termina.
1. O paradoxo da IA e a “Liberdade Cognitiva”
Vamos começar por uma provocação: e se os jovens não estiverem tão empolgados com a IA quanto imaginávamos?
Logo no início do evento, Arthur Igreja, especialista em inovação e tecnologia, trouxe um dos insights que mais chamaram atenção no SXSW deste ano. Historicamente, quando uma nova tecnologia aparece, espera-se que as gerações mais jovens sejam as primeiras a adotá-la. Com a IA generativa, porém, o movimento não parece tão óbvio.
Segundo Arthur, quem já desenvolvia determinadas habilidades antes da chegada da IA tende a aproveitar melhor essas ferramentas, como um artesão que passa a contar com um instrumento muito mais sofisticado. Já parte das gerações Z e Alpha, que estão entrando agora no mercado de trabalho, sente que a régua de exigência subiu rápido demais.
Como exemplo, ele citou cerimônias de graduação nos Estados Unidos em que menções à IA vêm sendo recebidas com vaias.
A discussão fica ainda mais interessante quando olhamos para o próprio SXSW.
Arthur chamou atenção para um detalhe que quem vai ao festival precisa ter em mente: os grandes palcos não contam a história inteira. Muitas vezes, são as sessões menores que trazem as ideias mais interessantes, justamente porque elas ainda estão começando a ganhar forma.
E isso nos leva a outro conceito apresentado no evento.
Simone Kliass, consultora de inovação, curadora do SXSW e palestrante oficial do festival, falou sobre a Liberdade Cognitiva, também chamada de soberania cognitiva.
A provocação é simples: quanto mais dados fornecemos às ferramentas de IA e menos questionamos suas respostas, maior pode ser a influência delas sobre a maneira como pensamos.
“Temos que questionar a intenção da máquina. Por que ela está me dizendo isso? Ela só quer me agradar? Precisamos ter segurança psicológica e fricção humana para crescer“, destacou Simone.
A IA pode, sim, ampliar nossa capacidade de pensar. Mas existe uma diferença importante entre usar uma ferramenta para chegar mais longe e deixar que ela escolha o caminho por nós.
A pergunta, então, não é só “o que a IA consegue fazer?”. É também “o que eu quero continuar fazendo por conta própria?”.
2. A “Inteligência Preguiçosa” e o novo motor da velha fábrica
Agora imagine uma empresa colocando um motor novinho em uma fábrica antiga e esperando que, sozinho, ele resolva todos os problemas de produtividade.
Parece estranho, certo?
Para Amanda Graciano, estrategista de negócios e economista, é exatamente isso que muitas empresas estão fazendo com a Inteligência Artificial.
O crescimento da IA generativa impressiona. O ChatGPT, por exemplo, alcançou 100 milhões de usuários em apenas dois meses. Mesmo assim, muitas organizações continuam usando essas ferramentas para fazer as mesmas coisas de antes, só que um pouco mais rápido.
Amanda recorreu a uma analogia com a Revolução Industrial para explicar o problema.
Quando o motor elétrico surgiu, muitas fábricas simplesmente trocaram a antiga máquina a vapor por uma nova tecnologia, mantendo a mesma lógica de produção. O grande salto aconteceu quando perceberam que não bastava trocar o motor: era
preciso redesenhar a própria fábrica para aproveitar o que ele permitia fazer.
Com a IA, estamos diante de uma situação parecida.
“Botamos um motor novo no meio da fábrica velha e esperamos que resolva a produtividade. O problema não é a máquina, é a lógica em que operamos.”
É daí que vem a ideia de Inteligência Preguiçosa: usar a IA para acelerar tarefas sem parar para pensar se o processo ainda faz sentido, se a entrega está boa ou se existe uma maneira completamente diferente de fazer aquilo.
É o famoso “agora temos IA, então vamos colocar IA aqui”.
Só que colocar uma ferramenta nova em um processo antigo não transforma automaticamente o processo.
O trabalho do futuro pede outra coisa: repensar processos, reorganizar responsabilidades e encontrar os pontos em que tecnologia e inteligência humana realmente se complementam.
A pergunta deixa de ser “como faço isso mais rápido?” e passa a ser “será que ainda precisamos fazer isso desse jeito?”.
Essa mudança de pergunta pode valer muito mais do que qualquer ferramenta nova.
3. O verdadeiro ROI continua sendo humano
Pode parecer irônico, mas um dos assuntos que mais despertou interesse durante o SXSW deste ano não foi Inteligência Artificial.
Foi comunidade.
Durante sua apresentação, Simone Kliass compartilhou uma pesquisa citada pela executiva Sandy Carter mostrando que a construção de conexões humanas estava entre os temas que mais despertavam interesse entre os participantes do festival.
Ao mesmo tempo, outros debates do SXSW reforçaram uma questão difícil de ignorar: estamos cada vez mais conectados e, ainda assim, muita gente está se sentindo isolada.
Simone apresentou pesquisas mostrando que 16% dos adultos norte-americanos dizem se sentir isolados quase todo o tempo. Também falou sobre a frequência cada vez menor com que muitas pessoas encontram seus amigos.
E aí veio uma provocação ótima.
Todo mundo tem uma To-Do List.
Mas e a To-Love List?
Quem são as pessoas de quem você cuida? Quais relações precisam de atenção? Com quem você precisa ter aquela conversa difícil que está sendo adiada há meses?
É uma pergunta simples, mas diz muito sobre o momento atual.
No SXSW, essa discussão aparece até na forma como o próprio festival acontece. Parte importante da experiência está nas conversas entre uma palestra e outra, nas trocas com pessoas que você acabou de conhecer, nas recomendações de uma sessão que você nem tinha colocado na agenda.
Amanda Graciano resumiu bem essa dinâmica ao falar sobre o que acontece entre os grandes momentos do evento: é nesse “meio do caminho” que muita coisa acontece.
Ideias circulam. Pessoas trocam experiências. Negócios começam. Uma conversa leva a outra.
E é aí que aparece um dos grandes diferenciais de estar em Austin: você não está apenas consumindo informação. Está convivendo com pessoas que também estão tentando entender para onde o mercado está indo.
A tecnologia pode acelerar processos. Confiança, colaboração e relacionamento continuam dependendo de gente.
Próxima parada: Austin 2027
As discussões do Futuro Aplicado deixaram uma coisa clara: a tecnologia vai continuar evoluindo, provavelmente em uma velocidade ainda maior do que conseguimos acompanhar.
A questão é como as empresas vão responder a isso.
As organizações que estiverem preparadas serão aquelas capazes de combinar Inteligência Artificial com pensamento crítico, criatividade, contexto e boas conexões humanas.
E se o SXSW deste ano já trouxe discussões capazes de mudar a forma como enxergamos trabalho, inovação e liderança, fica a curiosidade: o que Austin vai colocar na mesa em 2027?
O verdadeiro valor do SXSW está em ampliar repertório para tomar decisões melhores quando as transformações deixam o campo das tendências e começam a aparecer no dia a dia das empresas.
Por isso, chegar a Austin com estratégia, curadoria e objetivos claros faz diferença. Afinal, com centenas de sessões, experiências, encontros e discussões acontecendo ao mesmo tempo, ninguém quer voltar para casa apenas com uma coleção de fotos e uma lista de tendências para salvar no LinkedIn.
Quer levar sua empresa para o SXSW 2027 com planejamento e curadoria para transformar insights em resultados?
Fale com a gente e comece a desenhar a jornada da sua liderança para Austin.